Acidente grave em Goiânia reacende importância da doação de órgãos no Brasil

Os últimos dias foram tomados pelo peso de um acidente grave no trânsito de Goiânia. Contudo, em meio à dificuldade da perda de vidas jovens, a decisão da família de uma das vítimas pela doação de órgãos deve oferecer uma nova perspectiva para pacientes que estão na fila aguardando um doador. De fato, o nefrologista Ricardo Mothé, especialista da Singulari Medical Team, alerta que no caso específico da saúde dos rins, os brasileiros não andam bem. Um estudo da Universidade Federal da Bahia contabilizou mais de 770 mil mortes por insuficiência renal em um intervalo de 14 anos.

Para tornar o cenário ainda mais complicado, a Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos (Abto) registrou uma redução de 4,5% no número anual de doadores na comparação entre 2021 e 2020. Como explica o nefrologista, o paciente renal crônico tem a diálise peritoneal, a hemodiálise e o transplante como opções de tratamento. Nesse cenário, o médico esclarece a evolução da insuficiência renal, os diferentes casos e a importância de desfazer alguns mitos sobre o transplante de rim, cirurgia que pode recuperar a qualidade de vida do paciente renal crônico.

Diferentes tipos de tratamento

Embora o transplante seja visto como um tratamento ideal, o especialista explica que ele não é a única opção para o paciente renal crônico. De fato, a primeira abordagem é o tratamento conservador, em que o paciente é conduzido no consultório e ambulatório com medidas que buscam evitar a progressão da doença e até reverter algumas causas.

Nesse momento, o médico age para ajudar a equilibrar todos os fatores de risco que podem fazer com que a doença se desenvolva. Contudo, caso o quadro siga avançando, é necessário adotar outras medidas.

“Uma vez que a função renal entra numa falência mais avançada, geralmente abaixo de 20% e chegando até entre 15% e 10%, o paciente precisa ter a sua função renal substituída. Aí sim temos as três formas de continuar o tratamento. A hemodiálise, em que filtramos diretamente do vaso sanguíneo, a dialise peritoneal, em que utilizamos uma membrana dentro do abdômen como filtro e o transplante renal. As três opções são formas de tratar e substituir essa função renal previamente exercida pelos rins do paciente”, esclarece.

Mitos e verdades sobre o transplante renal

Antes de tudo, o nefrologista ressalta que todas as três formas de tratamento são bastante efetivas. No entanto, ele reconhece que o transplante tem maior potencial de dar maior qualidade de vida ao paciente. “Em princípio, quando o transplante é bem-sucedido, temos o tratamento mais efetivo diante da recuperação da função de filtragem e a retomada das funções endócrinas deste órgão. Além disso, ele é capaz de devolver algumas liberdades de dieta e qualidade de vida para o paciente. O transplante pode ser tão caro quanto a terapia renal substitutiva, mas, ao longo dos anos, a curva é de maior vantagem financeira do transplante em relação à diálise”, afirma.

Além de esbarrar no baixo número de doadores – dados da Abto mostram que foram registrados 3.330 em 2020 e 3.207 em 2021 em todo o território nacional -, outro ponto importante levantado pelo médico Ricardo Mothé é que o transplante renal não é uma cura. “É uma forma mais confortável de tratar a doença”, pontua. Ele reforça que o ponto principal é a devolução da qualidade de vida do paciente em vários aspectos, mas o tratamento, monitorização e cuidados serão constantes.

“Temos muitos pacientes que apresentam muitas limitações no pós-transplante como: não ter uma boa interação com as medicações, ou seja, muitos efeitos colaterais. Muitos desenvolvem complicações cirúrgicas, outros sofrem infecções recorrentes. Qualquer uma dessas situações também implicam em perda da qualidade de vida”, alerta. Assim, ainda que o transplante seja uma opção muito interessante, é necessário entender que ele também tem seus custos.

Em terceiro lugar, o nefrologista desfaz o mito sobre a lista de espera de doadores. Como ele explica, não se trata de uma fila única, numérica. Ela é avaliada por compatibilidade, desmembrada em quatro filas pelos 4 tipos de sangue e com a documentação cuidadosa feita pelos médicos que acompanham o receptor.

“Do outro lado, temos um fluxo já bem estabelecido mundialmente em que qualquer hospital que tenha um paciente que evolui com suspeita de morte encefálica abre um protocolo de confirmação. Uma vez definida a ocorrência, o hospital é obrigado por lei a informar à central de transplantes. Entra-se em contato com a família e, havendo o aceite do familiar, procede-se às análises que avaliam pelo código genético e seus cruzamentos com dados dos pacientes em espera. Uma vez que eles forem considerados elegíveis, vão se cruzando amostras entre receptor e doador para que se prossiga o transplante”, informa o especialista.

Por fim, Ricardo Mothé frisa que não existem dados suficientes para determinar a expectativa de vida do paciente transplantado, especialmente por depender do perfil de cada um. Ainda assim, ele lembra que a mortalidade é consideravelmente menor em relação àqueles que estão na fila aguardando um doador. Diante disso, é fundamental avaliar as opções e propor um tratamento individualizado bem como promover a conscientização da população acerca da importância da doação.

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