A Cruz do prefeito impedido de governar

Henrique Gessil

Quando Rogério Cruz (Republicanos) assumiu a prefeitura de Goiânia, na rasteira do titular morto por covid-19 Maguito Vilela (MDB), despertou desconfianças em todos os setores da sociedade. No mundo político, adversários criticavam seu “desconhecimento” da cidade – Cruz é carioca e passou anos na África, como bispo da Igreja Universal – e inexperiência administrativa. Na sociedade, sua opção religiosa, em meio ao caos bolsonarista, despertou temores quanto aos avanços sociais do país conquistados até então e em risco diante do terrorismo evangélico propagado por defensores de Bolsonaro.

O convite para pessoas ligadas ao movimento LGBTQIA+, defensores dos direitos humanos e do movimento negro para a composição do governo, porém, trouxe algum alento à população. “Aqui, sou prefeito, não religioso”, disse Rogério em mais de uma ocasião. Já a capacidade político-administrativa do prefeito, porém, está cada vez mais em xeque.

Não se sabe exatamente se Cruz se sente inseguro por não ser o detentor dos votos que o elegeram, se prefere ser apenas o garoto-propaganda do governo ou, o mais provável, se é apenas um menino de recados da Igreja Universal, por meio do Republicanos de Brasília. Mas o fato é que o prefeito pouco ou nada manda na Capital.

Todas as decisões, das mais simples às mais complexas, são tomadas pelo secretário de Governo Arthur Bernardes, homem forte do presidente do Republicanos do Distrito Federal, Wanderley Tavares. Junto com o secretário de Finanças, Geraldo Lourenço, indicado por Tavares, os três são os responsáveis pelo caos do aumento enorme, extraordinário, exorbitante, inaceitável do IPTU de Goiânia.

Tanto que o reajuste, em plena pandemia, em que a população disputa ossos para não morrer de fome, revoltou, agora que chegaram os boletos, os vereadores da base. Muitos se disseram enganados por Arthur e Geraldo. E não estão errados. O grupo de Brasília, para atender sabe-se lá quais interesses, passou, como se diz, o rolo compressor pela Câmara Municipal, obrigada a votar a toque de caixa o aumento que, agora, será parcialmente revisto.

Na semana passada, o prefeito anunciou a revisão de 35 mil lançamentos. Tentou se defender dizendo que revisões sempre houve. É verdade, prefeito, mas não nessa quantidade, seja sincero.

A revisão deve aplacar momentaneamente os ânimos. Daqui a pouco mais de dois anos e meio, os vereadores que tentarem a reeleição estarão perdoados, talvez. O mesmo não se pode dizer dos que disputarão um cargo de deputado agora em 2022. São os mais exaltados, obviamente, e com razão: provavelmente não se elegerão. A indignação é grande.

Rogério Cruz, por outro lado, será um dos poucos mandatários que não serão reconduzidos ao cargo. E não foi por falta de aviso. Vereadores próximos ao prefeito o alertaram, muitas vezes, de que o projeto era inapropriado e provocaria exatamente o que está sendo visto agora, indignação. O aumento do IPTU, repito, em momento de alto desemprego e retorno da miséria é e será para sempre sua marca. Mas quando isso acontecer, o grupo de Brasília já terá cumprido seu objetivo. E, para eles, é só isso o que importa. Afinal cuidar de Goiânia, para quê?

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