Sérgio Moro, enfim, candidato?

Rodrigo Augusto Prando

Em evento de filiação ao Podemos e com discurso político, Sérgio Moro traz à tona sentimentos e projeções variadas acerca de seus objetivos políticos. Símbolo maior da Operação Lava Jato quando juiz, superministro do Governo Bolsonaro, trabalhador da iniciativa privada nos EUA, enfim, uma trajetória já assaz atribulada nos últimos anos e, agora, uma pré-candidatura, ao que tudo indica para a Presidência, em 2022, mas não se descarta uma possível disputa por uma vaga no Senado Federal.

Em política, especialmente em eleições, um político com uma imagem consolidada e bem comunicada ao eleitorado é fundamental. Neste campo – da imagem construída e comunicada – Moro tem uma boa vantagem competitiva, pois foi algoz do lulopetismo e rompeu com o bolsonarismo. Desta forma, numa eventual candidatura de Moro ao Planalto, é muito mais provável que ele retire votos de Bolsonaro, de sua base conservadora, de grupos de militares e dos lavajatistas. Mas, sua condição de ex-juiz e a Operação Lava Jato são, hoje, diferentes daquele período no qual as ações tinham não apenas conquistado a opinião pública e a mídia, mas muitos corações e mentes na sociedade brasileira. Soube-se, depois, por meio da Vaza Jato, de áudios nos quais a conduta de Moro e de procuradores da república tornaram-se suspeitas de práticas que feriram as leis e os princípios republicanos. A investigação, a condenação – em primeira e em segunda instância – e a prisão tornaram Lula inelegível e, em 2018, Bolsonaro foi vitorioso. O Governo Bolsonaro iniciou-se com dois pilares: o combate à corrupção, simbolizado por Moro, e o liberalismo, afiançado por Paulo Guedes. Há tempos, tais pilares ruíram.

Se, no campo da imagem, Moro tem vantagens, no campo da visão política, do discurso, das ideias, dos valores e do domínio dos complexos temas nacionais ele, ainda, tem muito o que apresentar. Como juiz, tinha a proteção da toga; como político será espremido pelos jornalistas e duramente atacado pelos adversários. Sua vida será esmiuçada bem mais do que durante a Lava Jato. Os famigerados áudios da Vaza Jato voltarão à baila e a decisão do Supremo Tribunal Federal que o considerou um juiz suspeito e deu a liberdade e os direitos políticos a Lula pairarão sobre ele. Noticia-se que uma ala dos militares embarcaria satisfeita na candidatura Moro; ruim para Bolsonaro e não necessariamente bom para Moro. Já há analistas que cravam que Moro é simplório e pueril e não chegaria jamais ao Planalto, aliás, já indicam que sequer conseguiria vaga ao Senado, já que, nesta próxima eleição, apenas uma vaga estará em disputa. Particularmente, não tenho essa perspicácia analítica em tempo tão distante de asseverar quem será ou não eleito. Há, doravante, que se observar as pesquisas de intenção de voto e sua taxa de rejeição, mormente, no próximo ano e, também, quais os apoios políticos que Moro conseguirá trazer para seu projeto. Tendo a crer que os que desprezam Moro são os mesmos que nunca levaram Bolsonaro a sério e faziam chistes em relação ao capitão. Num cenário provisório, as pesquisas indicam a força de Lula indo para um segundo turno e ganhando de todos os seus adversários e a maior probabilidade de, neste segundo turno, o embate ser de Lula e Bolsonaro. Seria Moro capaz de tomar o espaço da tão esperada terceira via? Ou, como já circula, Moro seria um bolsonarismo sem Bolsonaro?

Em sua fala, Moro afirmou: “Chega de mensalão, petrolão, rachadinha e orçamento secreto”. Deixou claro com quem disputar: Lula e Bolsonaro e os últimos 20 anos de política nacional. Aguardemos.

Rodrigo Augusto Prando é Professor e Pesquisador da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Graduado em Ciências Sociais, Mestre e Doutor em Sociologia, pela Unesp.

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