Fetiches discriminados: como o Google e definições antiquadas perpetuam o preconceito

Vistas com repulsa por boa parte da sociedade, práticas consensuais carregam estereótipos e estigmas 

O diretor e roteirista, Felipe B. (51) se considera um fetichista, já que tem práticas sexuais que envolvem sadomasoquismo, voyeurismo, ménage, e outros hábitos encarados como tabus e até como doenças psicológicas pela sociedade. Na cena liberal há mais de 30 anos, Felipe é um dos milhões de frequentadores do Sexlog que possui fetiches e encaram com naturalidade seus desejos.

Não é possível afirmar ao certo quantas pessoas no Brasil são adeptas aos fetiches, mas no Sexlog, uma rede social adulta e dedicada ao sexo, estima-se que, pelo menos, metade dos 13 milhões de usuários se interesse, de alguma forma, por uma prática fetichista.

Para entender porque se trata de algo tão popular e, ao mesmo tempo, encarado com tanto tabu, basta uma busca rápida no Google. Um exemplo é a palavra Voyeurismo, que é definida como: “psicopatologia. Desordem sexual que consiste na observação de uma pessoa no ato de se despir, nua ou realizando atos sexuais e que não se sabe observada.”.

Outros fetiches que carregam o termo “psicopatologia” em suas definições são sadismo, masoquismo e sadomasoquismo. No entanto, de acordo com o psiquiatra Fernando Calderan, a prática do fectiche, desde que seja consensual, traga excitação e não traga sofrimento, não está relacionado a uma patologia. “O fetiche é a excitação sexual por meio de um objeto inanimado ou partes do corpo, faz parte da fantasia das pessoas. Elas fantasiam com roupas, acessórios, pés, etc”, explica.

A psicóloga clínica e terapeuta sexual, Ana Canosa, explica que, na medida em que se estuda o comportamento sexual das pessoas, percebemos que o conceito de “normalidade” faz cada vez menos sentido. “Os parâmetros passam, então, para uma avaliação de sofrimento, grau de inadequação e desvio de conduta social”.

A diretora de marketing do Sexlog, Mayumi Sato, conta que relatos de preconceito não são raros. “Um dos depoimentos mais comuns das pessoas que se cadastram no site dá conta dessa percepção errada que nós temos de que os fetiches são coisa de gente excêntrica ou problemática. Todos os dias, ouço alguém surpreso por descobrir que não está sozinho no mundo, pois o seu gosto é compartilhado por milhões de outras pessoas. Elas só não são incentivadas a falar sobre isso”, diz.

O preconceito da sociedade em torno dos fetiches

Calderan explica que, socialmente, existe uma mistura de reprovação e excitação em torno das práticas sexuais que fujam da rotina. “O fato de Freud ter descrito essas situações há 100 anos, num contexto médico, ainda tem um reflexo sobre a imagem do fetiche, que era chamado de desvio, de perversão. Hoje, isso já foi ressignificado e o fetiche faz parte da fantasia de muitas pessoas”, diz.

Para Ana Canosa, o preconceito e os tabus que rondam os fetiches são fruto do desconhecimento, repressão sexual perpetuada por séculos e do enquadramento heterocisnormativo da sexualidade, enquadrado em papéis rígidos de conduta. “Aos poucos, vamos desconstruindo e ampliando o olhar, conhecendo melhor as preferências e desmistificando o desejo”.

No caso de Felipe B., o fetiche faz parte da sua rotina sexual e o preconceito é o único problema que enfrenta quando o assunto são os seus costumes. “Lido com isso de forma aberta: gosto de sexo, gosto de práticas extremas e as trago comigo ao longo da vida. Nenhuma delas me faz ser um profissional, pai ou cidadão pior do que outras pessoas”, afirma.

Em paralelo aos olhares julgadores e que condenam os fetiches, livros e filmes como os da série “50 tons de cinza” fazem sucesso. Para Felipe, itens de entretenimento como esses fazem sucesso pelo fácil acesso e, embora tragam em seu conteúdo algumas referências a práticas fetichistas, não retratam bem esse universo. “Esses livros popularizaram alguns fetiches, mas de forma superficial. Um exemplo é que, hoje, chamam qualquer amarração de shibari e não é bem assim”, comenta.

Ele conta que, após o fenômeno da trilogia, muitas pessoas misturaram os canais, sem entender que o envolvimento na prática não é encenação. “É comum, também, pessoas chegarem ao final das sessões achando que serão amadas e terão um relacionamento além do combinado”.

Fetiche x Transtorno Fetichista

O preconceito acerca das práticas sexuais teoricamente incomuns pode ter origem na confusão que muitos fazem sobre o que é fetiche e o que é transtorno fetichista. Calderan explica que, o transtorno envolve um sofrimento associados. “Por exemplo, se essa for a única forma de obter prazer, seja por abuso da parceria ou pela não aceitação de outras formas de ter prazer”. Ele ressalta que o fetiche é uma forma de obter prazer, porém não é exclusiva. “A pessoa consegue se excitar de outras maneiras e não desenvolve relacionamentos abusivos pautados na prática”, diz.

O psiquiatra afirma que o fetiche ultrapassa o normal se traz sofrimento para o indivíduo ou para sua parceria. “O tempo dedicado ao fetiche também pode ser um sinal, ou caso torne-se um pensamento obsessivo, se o indivíduo investir grande parte do seu tempo nessa atividade ou pensando nisso a ponto de comprometer outras esferas da vida é outro sinal de alerta”.

De acordo com Ana Canosa, não é porque uma pessoa tem um desejo específico que isso por si só se configure um transtorno. “O transtorno parafílico acontece quando esse desejo e sua satisfação passam a provocar prejuízo à pessoa ou aos que estão a sua volta. Esses prejuízos vão desde a questão moral, quando o desejo é considerado imoral, ilegal e/ou não consentido; quando o objeto se torna uma ideia obsessiva, atrapalhando que a pessoa tenha outros interesses e desenvolva atividades laborais, de lazer, socialização; quando o desejo pode colocar a vida da pessoa ou de outros em risco; a pessoa tem dificuldade em ter parcerias que topem participar de sua realização, entre outros”.

Para Felipe, a questão principal do fetiche é: “o quanto disso pode e deve ocupar no nosso cotidiano?”. E, baseado em sua vivência e experiências, Felipe responde seu próprio questionamento, alegando que, atualmente, na casa dos 50 anos, “o ponto de equilíbrio é a responsabilidade com meus filhos, já que sou pai solo desde 2016 e isso será sempre a minha prioridade.”

A prática segura

A segurança na prática dos fetiches é abordada tanto pelo Dr. Calderan quanto por Felipe. Ambos ressaltam que qualquer prática tem de ser 100% consensual, mesmo naquelas que envolvam submissão, degradação ou servidão. Felipe, inclusive, sugere que por mais que seja uma relação entre adultos, exista alguma forma documental (cartas, e-mails, vídeos) em que as intenções de todos os participantes de uma “cena” estejam claras.

Outra sugestão de Felipe para a prática segura de fetiches é a combinação de “palavras de segurança”. “Essa expressão, combinada pelos praticantes, servem para que não haja dúvidas. Em práticas BDSM, o dominador precisa saber os limites, até mais do que o submisso”, explica.

Por isso mesmo, Mayumi explica que administrar uma rede social de sexo, swing e outros fetiches exige dedicação e compreensão do universo fetichista. “Tudo o que oferecemos à nossa comunidade, antes, é avaliado sob os critérios de segurança e respeito às diferenças. Praticamos o não julgamento, desde que as práticas sejam consensuais e realizadas por adultos sob condições saudáveis, capazes de tomar decisões. É um exercício diário”, relata.

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